Ser seiva, veneno ou fruto


Quanto desejo de chuvas
E de rebrotos
E de renovos 
E de ombros nus
E de amoras 
Sobre as raízes descobertas!
Manoel de Barros

É preciso começar dizendo do não entendimento que tenho de signos e mapas e deuses. Muito ou pouco se perde numa leitura que já começa assim. O livro da Júlia de Carvalho Hansen quer ver e quer que vejamos, que aprendamos a ver o poder ver. Ver é privilégio dos que param, em seu próprio dom e ritmo, e olham como formigas que tateiam palavras, no branco do chão da página. 
Como o solitário de Manoel, é preciso fazer uma curva diante das flores, das plantas e se deixar levar e se elevar nas linhas de Seiva veneno ou fruto (2016). Ao mesmo tempo em que o olhar se volta para dentro da terra e para o que dela brota, há um mergulho por águas e fogos, há um sentido em direção ao céu. Tudo isso num jogo de ver e desver, de visível e invisível: e tudo aquilo que é invisível em você / é tragado (invisivelmente) / para o buraco negro. 
Para ver é necessário luz, embora a gente saiba que não se impede o anoitecer. Ainda de dentro da noite, sondando na confusão o que desconhecemos, a voz poética,  visionária  e guia, abre os caminhos rochosos, nos mostrando que palavras abrem portas. Palavras abrem portas, abrem nossos olhos às raízes que o outro vê e cultiva. Ser seiva, aquilo que alimenta e dá vida, palavra que comemos como frutas doces. Poder ser veneno, não retirar as ervas daninhas. 
Há força e fluidez nos poemas de Júlia, há sangue morte e queda. Há um frescor de musgos na boca da terra. 

foto do facebook da Júlia

passaria dentro de um carro qualquer, roendo as unhas no mormaço da tarde. cortaria os cabelos e encheria o piso com o algodão preto na queda. numa bicicleta feliz, passaria de mãos dadas com a filha, sorrindo e olhando as vitrines. atravessando os olhos num mormaço em algodão, sentaria. ouviria o barulho da máquina que corta os cabelos negros. de dentro da vitrine roeria as unhas de mãos dadas com a tarde. abraçaria a queda numa bicicleta enquanto o algodão preto ouviria o barulho do piso. quebraria a vitrine, enchendo os olhos de mormaço. um mormaço que atravessa a rua e chega onde não está.





Um poema de Olga Savary

Olga parece ter nos observado no prazer da tarde, no gesto simples de chupar laranjas.
Nos aproximamos pela palavra, corações abraçados num mesmo desejo. Leio este poema e o faço meu, revelador de minha própria existência:


QUERO APENAS

Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.
Além de mim
- e entre mim e meu deserto -
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto de meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.
- Olga Savary

existirmos:

a pair of shoes, Van Gogh

o corpo imundo caindo
não se parece com as flores
de um ipê rosa no outono.

a calçada é um poço
de relva empedrada
pesando a chuva,
este suor no jardim
de trânsitos cegos.

o egoísmo ignora
a identidade do homem
sua barba de algodão,
vassoura sujando o cimento

pele portando a tragédia
de sua biografia.

signifique este homem
pela pena de si mesmo.

existe este homem acima da terra?

silenciosamente o seu rosto
assume a natureza
do sapato desgastado.

olhos em guerrilha

I

dos olhos

fantasmas cansados
em solidária companhia.
incorporam-se à boca, à beira do barulho.

repetem, noite adentro, a fumaça
como uma cauda ausente de forma.
num esforço de pedra,
resistem com armas de nuvens.

II

da guerra

o despertador da guerra obriga um lado
mínimo relâmpago caindo
em sílabas nas pegadas e bocas .
estoura em segundos
feito a merda que sai.

III

do corpo

carrega os olhos soterrados nas pálpebras,
agora cegos, acumulam memórias.


tutorial

quando se formou
em maquiagem
não sabia
que passaria os dias
colorindo outros rostos
e apagando o seu.

floriografia

 tentei ler as flores que trazia nas mãos mas tudo o que vi foram ramos secos de um tempo que já passou *